Ensaio

A Odisseia Nunca Foi Sobre Odisseu

"Talvez a história mais antiga da humanidade nunca tenha falado sobre o passado. Talvez ela sempre tenha falado sobre nós."

Ulisses e Argos
Figura 1: Ulisses e Argos (1869), tela de Briton Rivière. A obra retrata a dolorosa tensão dramática do poema homérico: o herói é forçado a ignorar seu companheiro agonizante para proteger sua identidade, enquanto o olhar do animal sela um reconhecimento silencioso de vinte anos de espera.

No final de A Odisseia, de Christopher Nolan, existe uma revelação silenciosa que passa quase despercebida.

Durante toda a viagem, Odisseu escuta histórias assustadoras sobre os chamados Povos do Mar.

Homens sem pátria.

Sem rei.

Sem honra.

Piratas que surgiam do horizonte deixando apenas fumaça, cidades queimadas e famílias destruídas.

São apresentados como monstros.

Como se o mal sempre viesse de algum lugar distante.

Mas, aos poucos, uma verdade desconfortável emerge.

As histórias não falavam de estrangeiros.

Falavam dos próprios gregos.

Falavam dos homens que haviam deixado Troia carregando nos navios não apenas ouro, mas violência; não apenas vitórias, mas feridas; não apenas glória, mas um vazio que agora espalhavam por onde passavam.

Os monstros que eles temiam encontrar no mar eram, na verdade, o reflexo daquilo em que haviam se transformado.

Confesso que, quando ouvi isso, deixei de assistir ao filme.

Porque, naquele instante, percebi que ele já não falava sobre Homero.

Falava sobre nós.

Talvez seja por isso que continuemos contando essa história há quase três mil anos.

Não porque ela pertença ao passado.

Mas porque ainda não conseguimos escapar dela.


Costumamos dizer que A Odisseia é a história de um homem tentando voltar para casa depois da Guerra de Troia.

Não é.

Essa é apenas a superfície.

A verdadeira pergunta nunca foi se Odisseu conseguiria atravessar o Mediterrâneo.

A verdadeira pergunta era outra.

Ainda existia um homem capaz de voltar?

Porque algumas guerras terminam quando as espadas silenciam.

Outras continuam acontecendo muito tempo depois.

Dentro de quem sobreviveu.

Talvez cada um de nós conheça esse tipo de guerra.

Nem toda batalha deixa cicatrizes visíveis.

Algumas apenas roubam o desejo de levantar da cama.

Outras levam embora a capacidade de confiar.

Há aquelas que destroem um casamento.

As que transformam pais em estranhos para seus próprios filhos.

E existem as mais silenciosas de todas.

Aquelas que fazem uma pessoa continuar respirando sem conseguir lembrar por que está vivendo.

Talvez seja por isso que tanta gente hoje não esteja apenas cansada.

Esteja perdida.


O mundo de Odisseu também parecia invencível.

Palácios gigantescos.

Rotas comerciais.

Tecnologia.

Riqueza.

Poder militar.

Então, em poucas décadas, tudo desapareceu.

Hoje chamamos aquele período de Colapso da Idade do Bronze.

Mas gosto de imaginar que os arqueólogos do futuro talvez deem outro nome ao nosso tempo.

Porque também vivemos cercados por uma sensação estranha.

Nunca tivemos tanta tecnologia.

Nunca produzimos tanta riqueza.

Nunca estivemos tão conectados.

E, ainda assim, nunca pareceu existir tanta gente tentando sobreviver sem conseguir explicar por quê.

Talvez o colapso de uma civilização nunca comece quando seus edifícios caem.

Talvez ele comece quando seus habitantes deixam de saber para onde estão voltando.


Durante muito tempo acreditou-se que os Povos do Mar destruíram aquele mundo.

Hoje muitos historiadores pensam diferente.

Eles encontraram cidades que já estavam enfraquecidas.

Os muros apenas revelaram uma ruína que havia começado muito antes.

Talvez aconteça o mesmo conosco.

Gostamos de culpar a economia.

A política.

A tecnologia.

As redes sociais.

A velocidade da vida.

Mas e se essas forem apenas as ondas?

E se o verdadeiro mar revolto estiver dentro de nós?

Talvez nossos Povos do Mar tenham nomes diferentes.

Ansiedade.

Burnout.

Solidão.

Depressão.

Perda de propósito.

Não chegam em navios.

Entram silenciosamente pelas pequenas concessões que fazemos todos os dias.

Cada refeição diante de uma tela.

Cada abraço interrompido por uma notificação.

Cada filho que aprende a disputar atenção com um celular.

Cada conversa adiada.

Cada noite em que dormimos exaustos sem conseguir explicar exatamente do quê.

Até que um dia percebemos algo inquietante.

Não sabemos mais para onde estamos navegando.


Existe uma cena da Odisseia que talvez seja ainda mais atual.

Calipso oferece a Odisseu aquilo que praticamente toda propaganda promete hoje.

Conforto.

Ausência de sofrimento.

Prazer.

Descanso.

Esquecimento.

Na adaptação de Nolan, ela lhe oferece flores de lótus capazes de apagar a memória da guerra.

Ela acredita estar sendo misericordiosa.

E então faz uma pergunta que parece atravessar os séculos.

"E se lembrar destruir a sua felicidade?"

Talvez essa seja exatamente a proposta da nossa cultura.

Esquecer.

Esquecer o silêncio.

Esquecer a dor.

Esquecer as perguntas.

Esquecer quem somos.

Não através de uma flor.

Mas de infinitas distrações.

Nunca foi tão fácil anestesiar a consciência.

Nunca foi tão difícil permanecer presente.

C.S. Lewis escreveu que somos como crianças brincando de fazer tortas de lama porque não conseguimos imaginar o convite para conhecer o mar.

Talvez ele estivesse descrevendo exatamente nossa época.

Aceitamos pequenas satisfações porque perdemos a capacidade de desejar aquilo que realmente poderia preencher a alma.


Mas então acontece um dos diálogos mais bonitos já escritos.

Calipso pergunta:

— Minha ilha é mais bela que Ítaca?

Odisseu responde:

— Sim.

Ela pergunta:

— Eu sou mais bela que Penélope?

Ele responde novamente:

— Sim.

Tudo favorecia sua permanência.

A ilha era melhor.

A companhia era melhor.

A vida era mais fácil.

Então ela pergunta aquilo que nenhum argumento consegue responder.

— Então por que partir?

E Odisseu responde apenas:

— Porque é a minha casa.

Há respostas que a lógica jamais compreenderá.

Quem ama um filho entende.

Quem cuida de um pai idoso entende.

Quem permanece fiel a um casamento durante décadas entende.

Pertencimento nunca foi uma questão de conforto.

Sempre foi uma questão de identidade.

Nossa geração parece ter esquecido isso.

Vivemos procurando a próxima ilha.

O próximo emprego.

A próxima cidade.

A próxima experiência.

O próximo relacionamento.

Como se a felicidade estivesse sempre logo depois do horizonte.

Talvez não esteja.

Talvez o que esteja faltando não seja um lugar melhor.

Mas raízes mais profundas.


Os gregos possuíam uma palavra quase perdida.

Xenia.

Hospitalidade.

Recebia-se primeiro.

Perguntava-se depois.

Hoje fazemos exatamente o contrário.

Classificamos antes de conhecer.

Suspeitamos antes de ouvir.

Competimos antes de cooperar.

Talvez o colapso das civilizações nunca comece pela falta de riqueza.

Comece pela perda da confiança.

Porque nenhuma cidade permanece de pé quando seus habitantes deixam de reconhecer humanidade uns nos outros.


Passamos boa parte da vida tentando mudar o mundo.

Talvez a direção esteja invertida.

Nenhuma civilização nasceu nos palácios.

Nasceu nas mesas.

Antes dos impérios existiram famílias.

Antes das leis existiu confiança.

Antes dos governos existiram pais contando histórias aos filhos.

Talvez reconstruir o mundo continue começando exatamente onde sempre começou.

Dentro de casa.

Dentro da alma.


Talvez nunca tenhamos entendido a Odisseia.

Sempre pensamos que era a história de um homem tentando encontrar sua casa.

Talvez fosse a história de uma casa tentando salvar um homem antes que ele esquecesse quem era.

Talvez por isso Homero nunca tenha escrito sobre monstros.

Escreveu sobre escolhas.

Porque monstros não nascem no mar.

Nascem quando a guerra continua vivendo dentro daqueles que voltaram dela.

No final, os Povos do Mar não eram estrangeiros.

E talvez essa seja a revelação mais difícil de aceitar.

Os maiores perigos para uma civilização raramente chegam de fora.

Eles surgem quando homens e mulheres deixam de encontrar sentido na própria existência e começam a espalhar esse vazio por onde passam.

Toda guerra produz ruínas.

Mas algumas continuam queimando muito depois do último combate.

Dentro das famílias.

Dentro das cidades.

Dentro da memória.

Talvez seja por isso que ainda lemos Homero.

Não para descobrir como Odisseu encontrou Ítaca.

Mas para responder uma pergunta muito mais urgente.

Depois de todas as guerras que travamos — contra o tempo, contra o sucesso, contra os outros e contra nós mesmos — ainda existe, dentro de nós, alguém capaz de voltar para casa?